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A falta de comida no prato chamado Brasil

País contabiliza mais de dez milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave e voluntários tentam minimizar o problema

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Arroz, feijão, bife, farofa…Você sabe o que é ter vontade de comer esse prato e simplesmente não ter? Não, não é só não tê-los na hora para cozinhar. É não ter nada no armário. E, além disso, estar sem dinheiro e sem nenhuma previsão de quando terá novamente. Esse vazio vem assolando a vida de 10 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Em outras palavras, essas pessoas estão passando fome.
 

Eu já senti isso, não nego, assim como já vi muitas pessoas onde moro – na Rocinha – terem a mesma sensação. Dormir como se o seu estômago estivesse oco, rezando para que os goles de água e gelo preenchessem esse espaço enquanto um novo dia não chega. Ir dormir, querendo sonhar com comida, esquecendo que, até pra isso, é preciso estar com a barriga cheia. Felizmente, este é um problema vencido em minha vida, mas que atinge uma população equivalente à soma de quase todos os moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro.
 

Os dados do IBGE ser referem ao biênio 2017-2018, e indicam também que o total de pessoas com alimentação em quantidade suficiente e satisfatória no Brasil é o mais baixo dos últimos 15 anos. O número de brasileiros que passam fome cresceu, segundo o órgão, três milhões de pessoas em cinco anos. A conta não inclui os indivíduos que vivem em situação de rua. No ano de 2014, o país havia deixado o Mapa da Fome graças aos investimentos em políticas públicas, mas a situação começou a apresentar ruídos a partir de 2015, em decorrência da crise econômica.

Como se não bastasse esse cenário desolador, ainda esbarramos pelo caminho com uma pandemia que, justiça seja feita, não criou o colapso, apenas fez com que todos os fatores fossem extrapolados. Com isso, rapidamente, as taxas de pobreza foram impulsionadas em todo o território nacional. Em documento lançado pela Oxfam, organização da sociedade civil, o Brasil figura como um dos epicentros da fome no mundo, junto com a Índia e a África do Sul, onde milhões de pessoas encontram-se em péssimas condições de insegurança alimentar e pobreza extrema.

Atuando com o objetivo apenas de “reduzir os danos’’, uma série de ações espalhadas pelo Brasil arregimentaram voluntários e doações em meio ao caos sanitário. Uma dessas iniciativas foi capitaneada pela Love Together Brasil que fez, até o momento, a distribuição de 82,5 toneladas de alimentos, além de 69 ações emergenciais com entrega de kits de higiene, com máscaras, álcool-gel e termômetros infravermelhos. Ao todo, foram atendidas mais de 169 mil pessoas com doações diretas.

“As campanhas que fizemos durante a pandemia da covid-19 foram desafiadoras. Muitos disseram que seria impossível realizar todas as ações por conta da dificuldade com transporte e contato à distância com as instituições. Superamos tudo isso e mais um pouco. Nada é impossível quando se tem amor ao próximo, vontade de fazer o bem e energia para driblar todos os obstáculos que aparecem’’, diz Kassya Cardoso, diretora jurídica e de ações.

A iniciativa, que nasceu para levar água à regiões do Nordeste, hoje está presente também nas periferias de cidades como o Distrito Federal e São Paulo, atuando em cada local de acordo com a sua necessidade: “Se nós ainda precisamos olhar para a água, não nos espanta discutir a falta de comida, lamentavelmente. A falta de água, saneamento básico e comida é uma realidade em várias cidades brasileiras, o que foi ainda mais agravado com a chegada da covid-19’’, complementa Geralda Sarraf, co-fundadora da Love Together Brasil.

Para Geralda, a reposição de alimentos às famílias assistidas não deve se esgotar, e este trabalho faz parte da sina de quem atua no terceiro setor: “Uma cesta básica não atende uma família por muito tempo, todo mundo sabe. Atender emergencialmente as famílias é uma rotina para projetos e todas as iniciativas sociais’’.

Quem tem fome, tem pressa’’

Para Rodrigo Afonso, o Kiko, diretor da Ação da Cidadania, a pandemia fez com que as desigualdades ficassem não só mais expostas, mas acirradas. ‘‘O que essas pessoas vão fazer?, me pergunto. Não fosse a atuação da sociedade civil, uma das maiores nas últimas décadas e o Auxílio-Emergencial, que alternativa milhões de famílias teriam? Sairiam por aí fazendo saques em supermercados. Não tem comida, não tem a quem recorrer, não tem emprego. E aí?’’, constata.

“Quem consegue solucionar esse problema é o Estado. É ilusão achar que a sociedade civil sozinha consegue resolver um problema grave como este’’, explica.

O governo Bolsonaro vem tentando criar um programa social que substitua o Bolsa Família e abarque mais pessoas, sem que o limite dos gastos públicos seja ultrapassado. No entanto, no último dia 16, o ministro da economia, Paulo Guedes, afirmou ser melhor manter o projeto do que realizar algum movimento que não tenha sustentabilidade fiscal. “É melhor nós voltarmos para o Bolsa Família do que tentar fazer uma loucura, uma coisa insustentável fiscalmente”. Segundo Guedes, o presidente Jair Bolsonaro concorda com essa decisão.

Kiko acredita que a ciência dessas urgências acaba sendo mais percebida por quem trabalha, diariamente, em prol de pessoas vulneráveis. “A Ação atua na ponta e nossa rede permite uma coisa que o IBGE não consegue: ter uma visão em tempo real do que acontece. Pegamos o telefone, ligamos para os comitês e perguntamos: ‘Como está a situação? Tem comida?’”, aponta. Durante a pandemia, mais de quatro milhões de alimentos foram distribuídos nos 26 estados, impactando a vida de dois milhões de pessoas.

O diretor salienta que os problemas não são de hoje, e que já vê como consequências o desespero de pessoas que não tinham alimento no lar e acabaram cometendo suicídio. “São coisas absurdas, e que já estávamos alertando desde 2016. Será que não era pra gente ter se preocupado antes, colocado o tema como prioritário, investido mais?’’, questiona.

Vinte e três anos após a criação da iniciativa pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, o desafio da tradicional mobilização “Natal Sem Fome” está posto: encarar 80 milhões de pessoas que precisam de ajuda, e para agora. “Quando o Betinho lançou a campanha em 1993, colocou a questão emergencial que conseguia ter eco no governo federal para a realização de políticas públicas, e neste momento não há mais isso. Nosso trabalho é de bombeiro, é o famoso “beija-flor’’ apagando o incêndio na floresta, quando se precisa de milhares deles juntos’’.

Perguntado qual seria o sentimento do fundador, morto em 1997, Kiko é categórico:

“Se o Betinho estivesse vivo, estaria muito desesperado’’.

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